A metamorfose do corpo da serenidade ao desassossego:

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Reconheçamos, de uma vez por todas e sem reservas, que a forma como expomos, dialogamos e, acima de tudo, vemos e olhamos os nossos corpos transformou-se. Modificou-se. Adulterou-se. O paradigma mudou.

O tema do corpo transitou de mero assunto de contenda para um dos tópicos zeitgeisty que mais tem produzido debates, conflitos e controvérsia. E é, neste momento, um objeto de discussão transversal em todas as culturas. A incidência deu-se, inexoravelmente, nas sociedades ocidentais pós-modernas, mas o seu caráter, inerentemente, tentacular acabou por se tornar globalmente infeccioso. Em tempo algum da História da Humanidade os indivíduos, independentemente da sua etnia, religião, sexualidade, educação ou classe económica, se inquietaram tão vorazmente com o seu corpo. E com o corpo dos outros. Em nenhum momento da conjuntura social, como a que testemunhamos nos dias de hoje, o barómetro do escrutínio e da inspeção corporal atingiu esta fronteira. Mas de que forma? Como é que ascendemos a esta condição de inconfundível desassossego com os nossos corpos? Poderíamos enumerar, infindavelmente, as parcelas e os ingredientes que contribuíram de uma forma positiva e/ou negativa para que a obsessão com os nossos corpos se tornasse insolentemente tangível, mas podemos identificar os protagonistas. Em primeiro lugar, podemos apontar o estabelecimento pungente, desde os finais dos anos 70, de uma cultura que dá primazia ao corpo em detrimento da mente. De uma cultura que o objetifica, que o coloca num pedestal e que recorre, permanente e incessantemente, à difusão de imagens de ideais de beleza inatingíveis e, em última análise, tóxicos. Veja-se os casos do boom dos vídeos fitness (Jane Fonda lançou o primeiro em abril de 1982), e a consequente fixação pelas idas ao ginásio e por um corpo fit. As dietas inacessí veis e respetivos livros, o marketing de guerrilha sobre produtos light, biológicos e gluten free e uma obsessão pelo adjetivo healthy (veja-se o sucesso e adesão aos programas de televisão como Biggest Loser, Extreme Makeover, Botched, entre tantos outros), as operações plásticas a multiplicarem–se e a treparem, exponencialmente, na lista das nossas prioridades, até à derradeira etapa: modelos que são excluídos dos desfiles por não se inserirem dentro da estética corporal vigente e a quantidade de atores no desemprego devido ao favoritismo por modelos e pretty faces. Por outro lado, a intrusão e a invasão das redes sociais na última década fomentou, dissimuladamente no seu advento, mas nos dias de hoje de uma maneira despudorada, a forma como lidamos, observamos e mostramos os nossos corpos. A exibição e revelação dos nossos corpos tornou-se um enredo, uma narrativa, uma efabulação. A procura e o domínio de ferramentas como o Photoshop, as apps de edição de fotografias e a interminável abundância de filtros e corretores contribuíram para que, paulatinamente, tenhamos começado a utilizar o nosso corpo como ornamento e não como instrumento. O que pode ser apelidado como a maldição da self-portraiture: as redes sociais provocaram uma ansiedade, uma inquietação e uma efetivação de ideais de beleza inalcançáveis e nocivos. E, com isto tudo, uma verificação drástica comportamental, com a ampliação do body shaming, dos distúrbios alimentares, da dismorfia corporal, do estigma social da obesidade e da ambição de nos tornarmos aquilo que não somos.

Contudo, dentro deste vórtice da procura do corpo perfeito (whatever that means) e da ambivalente auto-objetificação, começam a existir, ainda de uma forma tímida, mas cada vez mais prolífica, plataformas que promovem ideais counter culture, que vêm destruir esta mitologia corporal e que incentivam uma body positivity. Modelos plus size nas passarelas, campanhas internacionais contra o body shaming, chamadas de atenção para o facto de que tudo o que é orgânico e biológico nem sempre é o melhor e vice-versa. Ou mesmo programas como Revenge Body de Khloé Kardashian e séries como Insatiable no Netflix. Todavia, não é possível construir-se, ainda, uma análise precisa e minuciosa do impacto que estas iniciativas possam vir a provocar na transformação do nosso mindset e na incrementação de uma consciência corporal coletiva mais harmoniosa e desprendida de ideias fabricadas e opressivas. O mote “Original fades. Fake is forever.” parece conviver ainda, de uma forma bastante sólida, nas nossas vidas. Na verdade, quantas indústrias cosméticas colapsariam se homens e mulheres começassem, naturalmente, a aceitar de uma forma plena os seus corpos? Estaremos, realmente, dispostos a converter-nos na direção de uma filosofia corporal mais serena e menos desassossegada?

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