Conheça um dos pioneiros do movimento crespo masculino em Angola

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<<Partindo do princípio que nós somos negros então devemos lutar para mostrar ao mundo as nossas raízes>>

 

Ricardo Cataganha é um jovem estudante do ensino secundário, co-fundador da Associação Crespo Angola que durante o mês de Março trouxe à tona nas redes sociais o corte obrigatório de cabelo dos estudantes masculinos, colorismo e conscientização da identidade africana nas instituições escolares e do estado.

Empenhado no empoderamento da estética masculina africana, a sua luta é igualmente política e focada no envio da carta aberta ao Ministério da Educação expondo tópicos e tratamento aos alunos de escolas públicas e privadas a fim de abolir os cortes obrigatórios dos cabelos masculinos.

Quando e como surgiu a Associação Crespo Angola?

Soube da associação pelas redes sociais e depois de ter mandando mensagem a página no Instagram descobri que o gestor e o criador era o Zuénio José, um amigo que logo a seguir convidou-me a colaborar e eu aceitei, decidimos nos juntar com outros colaboradores que estavam a passar pelo mesmo problema.

No começo recebi depoimentos de amigos e desconhecidos que eram obrigados a cortar o cabelo chegando até expulsão.

E desde o começo do movimento teve apoio de outras pessoas que passaram pelo mesmo?

Sim, principalmente de amigos e colegas, e com a ajuda de alguns familiares, recebo mensagens dos mesmos, e pessoas famosas que deram palavras de apoio e que estavam conosco neste movimento.

Qual é o propósito da associação e a quem querem chegar?

O maior propósito é fazer chegar uma carta física direcionada à senhora Ministra da Educação Luísa Grilo e termos resposta porque de facto em Angola não existe uma lei que impede os rapazes de usarem o cabelo como desejam  e em instituições religiosas escolares não há regra concreta pois não conseguem  justificar a proibição, dando motivos que não convencem e temos que seguir à risca.

Certos apoiadores da causa têm como  opinião que os regulamentos remetem a pensamentos coloniais que afectam os alunos negros, diferentes dos demais. Qual é a sua opinião acerca disso?

É verdade, é um facto pois já tive colegas mestiços e brancos e partindo do portão da escola que  impedem de entrar na escola alguns colegas negros enquanto que os colegas brancos não. Já aconteceu na minha turma várias expulsões de colegas para fora da sala por conta do cabelo e ainda chegam a diminuir as notas.

Há casos óbvios de colorismo nas escolas?

Sim, nós estamos sempre a lutar não só nas redes sociais mas em diálogo tentamos sempre mudar os pensamentos das pessoas em torno desses casos porque em 2021 o colorismo ainda é presente e nos negros ainda fazemos uns com os outros.

 

A aderência é grande mas nem todos são fãs desse movimento, há imensa crítica? 

Recebemos críticas porque esse assunto não é novidade. Desde 2015 que circulam relatos desta natureza nas redes sociais; vimos alguns comentários no instagram criticando que é apenas uma moda, vaidade e não pela cultura. Constatamos que nas escolas, especialmente no dia das crianças é permitido o uso de trajes africanos para todos os alunos, sendo que o  crespo é uma excepção e após a data somos obrigados de novo a cortar o cabelo então não passa de uma representação da efeméride.

Qual é a forma convencional usada para quebrar o mau estereótipo do “Afro” masculino com a sociedade e instituições em geral?

De momento pedimos apoio para quebrar o estereótipo e mostrar imagens de figuras famosas negras importantes na história de África com o cabelo afro e também vários tipos de cortes e penteados conscientizando que o cabelo não afeta ou influencia nas ações e intelectualidade de uma pessoa.

Alguma vez recebeu o rótulo de marginal, pela forma que usa o cabelo?

Sim, sempre ouço e dizem que o homem não pode ter cabelo grande, sendo grande parece gay ou mesmo um bandido. Só fica bem para uns e outros.

 

A associação tem gerado buzz  nas redes sociais tendo apoio de diversas figuras famosas, com a luta e empoderamento, está nos vossos planos legitimar o movimento?

De momento ainda estamos focados na carta mas dentro do nosso movimento houve pessoas que solicitaram greves, manifestações com o intuito de chamar atenção do Ministério da Educação mas por conta do cenário do país não queremos fazê-lo porque, ainda  associam manifestação tumulto. Contamos com o apoio de algumas pessoas com pais e familiares que trabalham no ministério a favor de fazer chegar a carta à ministra.

Que mensagem tem a transmitir aos jovens e a sociedade em geral?

Aos jovens e a sociedade eu digo para se aceitarem porque a nossa identidade está na aceitação, se não aceitarmos a nós próprios o resto do mundo vai ter que aceitar nós porque é a nossa identidade. Partindo do princípio que nós somos negros então devemos lutar para mostrar ao mundo as nossas raízes.

 

Texto: Viviana Caetano 

 

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