Corpo social, corpo real?

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8h30 da manhã. Chego da corrida, vejo as selfies que tirei para iniciar o meu dia online. Manhãs activas, as minhas! (Ou não…) Cara de sono, mal-humorado, um frio que não se pode, só queria ficar na cama, ainda por cima o cabelo ficou com aqueles jeitos péssimos.

Operação Avatar ou operação #oeuqueeudeviaser: retoca aqui, esbate as olheiras, elimina aquele caracol do cabelo, um brilho nos olhos e o corrector daquela borbulha provocada pelo fim-de-semana em festa. Estilizar o pescoço e fico pronto para ser partilhado. Perfeito. Feliz. Enérgico. 8h30 e já tão saudável.

E continuo na operação avatar, com a última aplicação de retoque que é o máximo e tão fácil, porque tenho tanto para partilhar: a gargalhada com um espinafre no dente a comer sopa com o meu sobrinho; o cabelo mal cortado no cabeleireiro de marquise daquela terrinha em que o secador ia abaixo cada vez que a mãe da cabeleireira ligava a fritadeira; e a cara de tédio na festa em Ibiza que parecia ser a melhor festa do ano e afinal foi uma grande seca. Ai! E as dos Estados Unidos! Urgente retocar para partilhar! Engordei 10 quilos, afinal ninguém se quer lembrar de estar com peso a mais! É preciso apagar, retocar, reinventar, vermo-nos lindos, cuidados, felizes. É preciso que nos vejam sempre lindos, cuidados, felizes.  Afinal, é um corpo social, um corpo para partilhar.

Anos mais tarde, percorro as selfies partilhadas na minha linha do tempo. Não sei quem foi, quando foi, como foi, onde foi. Não sei quem fui, como fui, onde fui. Porque o corpo (real) tem memória, conta histórias, dá-nos o tempo, a cronologia, diz-nos sobre nós. E quando nos editamos sistematicamente, somos um (ou vários) avatar, sem identidade, com expressões, características, tendências e padrões de beleza ditados por alguém que nunca vimos, nunca ouvimos, nem sabemos quem é nem porque dita o que dita. Deixamos de lado o que realmente conta: quem somos e como somos, quem fomos e porque fomos. Perdemos a(s) memória(s), desfragmentamos a nossa identidade, deixamos de ser um contínuo que nos ajuda a compreender e a aceitar aquilo que nos levou ao que somos hoje, o que nos ligou aos outros, as emoções de cada experiência, a nossa biografia e a nossa real linha do tempo.

E afinal… Para quê? Porquê? E quando formos mesmo nós? Ao vivo, com a imprevisibilidade da vida, de ser pessoa? De nos vermos e de nos verem como realmente somos?

As redes sociais criaram esta pressão em quem as usa, aplicar filtros para corrigir imperfeições, partilharmos com o mundo o melhor de nós e esconder o que não é perfeito. As redes sociais vieram instalar o medo de sermos nós mesmos quando nos expomos para o mundo, de não correspondermos ao que achamos que os outros esperam, que não correspondamos aos padrões de beleza que se instalaram e que nos são impostos, padrões cheios de perfeições, correcções, sem espaço para sermos nós mesmos: humanos, verdadeiros, únicos e de nos aceitarmos como somos.

por  Rita Castanheira Alves

Psicóloga especialista na área clínica e da saúde

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