Da Androginia a moda Genderless

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As discussões sobre gênero vêm se tornando cada vez mais frequentes nas conversas cotidianas, na mídia e até mesmo nas escolas. Na moda, esse tópico não ficou para trás – ao contrário disso, já se fala na mistura de características femininas e masculinas há muito tempo. Foi nos anos 70, com figuras icônicas como David Bowie, que a androginia, mistura de tendências da imagem do homem e da mulher, ganhou o olhar do mundo todo.

Descendente da androginia, a genderless (sem gênero, em português) vai ainda mais fundo no questionamento do que é masculino e feminino. Dessa vez, a proposta é desenvolver roupas que possam ser usadas por qualquer um, independentemente do gênero com o qual se identifica, com a intenção de permitir auto expressões livres de amarras.

Quando Julia Roberts surgiu de terno e gravata na cerimônia do Golden Globes, em 1990, ela trouxe para o mainstream um conceito milenar na história da moda: o genderless.

O salto alto, por exemplo, foi inventado para que os homens tivessem um melhor encaixe dos pés durante as montarias. Foi só no século 16 que as mulheres passaram a usar o calçado, quando Catarina de Médici introduziu a peça em suas produções. 

Hoje, a moda sem gênero aparece cada vez mais forte no DNA de novas marcas. Seja pela sensação de liberdade que traz, seja pelo conforto que proporciona. Ou uma mistura dos dois.

Nos anos 90, o designer austríaco inovou ao apresentar suas coleções masculinas e femininas na mesma passarela, e sua moda se destacou pelo foco unissexo que trouxe a peças funcionais. No universo de Lang, a ausência de detalhes decorativos e proporções extravagantes abriu espaço para o investimento em tecidos extremamente confortáveis, transformando suas criações minimalistas em objetos de desejo para mulheres que não estavam nem um pouco interessadas em demonstrar fragilidade.

O desafio na moda agênero é a criação de roupas com cortes que sirva confortavelmente a todos. O conceito de blusa feminina, por exemplo, é desfeito. Os decotes e as modelagens curtas e acinturadas são substituídas por modelos mais retos, que possam se adaptar a diferentes corpos, mas sem necessariamente deixar de fora características como flores, recortes delicados, babados e transparências, antes reconhecidos como modelos para mulheres e agora vistos apenas como adereços que podem servir a qualquer um.

Em uma coluna intitulada “Geração Gender Neutral”, a editora internacional da Vogue, Suzy Menkes, afirma que o look hoje passa longe de ser um statement ou uma provocação. “Antigamente, as mulheres estavam rompendo normas para competir com os homens no mercado de trabalho e usar ternos com saltos altíssimos era parte de um processo de afirmação. Hoje em dia, não há mais necessidade de agressão na androginia.” No texto, ela conclui que o que antes era a moda unissex, hoje é a forma normal como as pessoas se vestem. 

Mais recentemente, em 2010, as discussões sobre moda unissex começaram a aparecer e ganharam ainda mais força em 2016, quando o ator Jaden Smith, em parceria com a Louis Vuitton, apareceu em propagandas utilizando looks compostos por saias. Atualmente, um dos famosos propagadores dessa tendência é o cantor britânico Harry Styles, que já declarou não acreditar na diferença de gênero nas roupas e abusa dos babados e das transparências em seus looks.

A prova de que os fundamentos genderless foram abraçados pela moda atual é que as coleções da Helmut Lang continuam atemporais, com suas cores descomplicadas e cortes lineares. Para 2016/2017, a grife aposta em camisetas casuais com ombros bem soltos e jaquetas sem manga, equilibrando slip dresses discretos e peças com estampas suaves.

Expoente mais urbano do no-gender, Alexander Wang é celebrado por sua releitura cool e moderna. Um look típico da grife nova-iorquina pode incluir bermuda de alfaiataria, brogue e blazer, ou calça de moletom e blusa cropped estruturada.

Jonathan Anderson, por sua vez, trouxe inovação à tradicional marca espanhola Loewe. Celebrado pela sua filosofia sem gênero, ele repaginou designs históricos da grife com formas mais fluidas, criando uma coleção boêmia e livre – tanto de imposições de gênero como de estações do ano.  

Vivienne Westwood também continua levantando a bandeira que ajudou a popularizar. Em um de seus recentes desfiles em Paris, ela trouxe homens vestindo looks femininos e mulheres exibindo peças de alfaiataria, finalizando a apresentação com uma noiva de terno e um noivo de vestido.

Suzy Menkes pode estar certa sobre o momento atual da androginia, mas ainda existem algumas provocações a serem feitas nesse debate. E ninguém melhor para provocar do que a eterna rainha do punk.

 

Por: Edvaldo Salvador

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