Entrevista com: Dário Octávio Andrade

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UMA LUTA PELO DIREITO DE EXISTIR (2ª parte)

Estamos de volta para dar continuidade com a nossa tão interessante entrevista com o activista LGBTQIAP+ Dário Octávio Andrade. Sem mais delongas… leia.

Trabalho de consciencialização das crianças.

DO: na verdade, o preconceito pelas pessoas LGBTQIAP+ em África, é uma herança colonial e não ancestral, existem hoje estudos antropológicos e históricos que confirmam que, pessoas LGBTQIAP+ sempre existiram nas sociedades pré-coloniais africanas, e que elas eram tidas socialmente de forma extremamente diferente da que vemos hoje, desempenhavam papéis políticos, militares e religiosos relevantes para àquelas sociedades, e eram denominadas de acordo as nossas línguas, filosofias e crenças.

Mas é verdade que o preconceito não nasce connosco, ele nos é ensinado, desde tenra idade.

Quando trabalhava para a Associação Íris Angola, lembro de lá já termos elaborado livrinhos e cadernetas que falavam sobre SOGIE apropriadamente para crianças e adolescentes nas escolas primárias, secundárias, etc. 

Chegamos mesmo a apresentar esta proposta junto do ministério da educação, mas não andou por razões que “desconhecemos” até hoje.

Mas sempre que temos oportunidade e somos convidados, visitamos escolas e realizamos debates à volta deste tema, onde desmistificamos muitas fábulas criadas pela ignorância e o medo pelo diferente.

Também participamos em algumas rodas de debates em universidades, de modo a levar informação para todos.

Sentimos que ainda é pouco, mas não perdemos a força de vontade, e continuaremos a luta para ocupar espaços e levar informação, para os quatro cantos deste país.

Como ter acesso a informações sobre sexualidade e orientação sexual?

DO: como disse antes, as tecnologias de informação estão aí para também levar até nós, informação, basta sabermos pesquisar e filtrar as informações que nos aparecerem.

Também podem participar dos encontros e rodas de conversas, actividades recreativas organizadas pela Associação Íris Angola, e pelos movimentos sociais criados para a comunidade, o Movimento Eu sou Trans, o Arquivo de Identidade Angolano, e tantos outros.

Também podem seguir os activistas LGBTQIAP+ nacionais nas redes sociais, tais como Emercio dos Santos, Augusto Preto, Imanni da Silva, Roqueana Gunza, Líria de Castro, Carlos Fernandes, Davi Kanga, Keke Petrova, etc., e expor as suas dúvidas, fazer questões e procurar perceber o assunto o melhor possível.

Existe também um blogue/revista chamado QUEER PEOPLE, criado pelo activista Davi Kanga, onde também podem encontrar notícias sobre a comunidade LGBTQIAP+ (inter)nacional, cultura, etc., a Página LGBT Angola, criada pela Keke Petrova, uma mulher trans, que também tem o papel de disseminar informações sobre a comunidade, interagir com os membros da comunidade, passando empoderamento, às vezes também recebe denúncias sobre maus tratos, ataques homofóbicos, expulsões, etc.

Existem muitos activistas LGBTQIAP+ nacionais que disseminam conteúdos informativos nas plataformas digitais, de modo a informar as pessoas sobre identidade.

Onde os pais podem procurar por orientação para perceber os seus filhos LGBTQIAP+?

DO: os pais podem contactar estas instituições  e pessoas que acabei de citar acima. Também podem ir ao YouTube, por exemplo, e assistir aos vídeos de Rita Von Hunti, Pirula, o canal Põe na Roda, etc., lá encontrará também muitas explicações sobre sexualidade, alguns conselhos de como lidar com a sexualidade dos seus filhos e de como os apoiar-se ajudar a se compreenderem enquanto pessoas LGBTQIAP+, etc.

Também podem usar o Google Academic e pesquisar sobre sexualidade humana, etc.

Hoje em dia, existe muito conteúdo sobre o assunto nas plataformas digitais…

Obras científicas desenvolvidas sobre orientação sexual e sexualidade humana?

DO: existem sim muitos trabalhos científicos e livros sobre sexualidade humana e género, eis alguns:

  • Boy-Wives and Female-Husbands – Studies in African Homosexualities;
  • Leitor Queer Africano;
  • Dinâmica do preconceito por gênero e sexualidades no cotidiano escolar: os limites da democracia liberal Marco Aurélio Máximo Prado, Juliana Batista Diniz Valério. Revista Periódicus 1 (10), 402-426, 2018
  • Concepções sobre Diversidade de Orientações Sexuais veiculadas nos Livros Didácticos e Paradidácticos de Ciências e Biologia Cristiane Pinto ANDRADE
  • Esboço de uma identidade trans no século XIX: La Fille manquée, de Han Ryner
  • Género, Sexualidade e Educação — Leandro Colling
  • IDENTIDADE DE GÊNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL: PERSPECTIVAS LITERÁRIAS – Talita Graziela Reis Melo 1,  Maura Vanessa Silva Sobreira 2

E tantos outros trabalhos científicos que existem e explicam detalhadamente os fenómenos da sexualidade humana.

Quais as principais diferenças entre Angola e o resto do mundo em pautas LGBTQIAP+, as lutas e desafios para os avanços dos direitos da comunidade?

DO: A diferença está directamente ligada à política. Em muitas partes do mundo questões de direitos humanos direccionados às minorias sexuais são tomados como debates políticos, com o fim de melhorar as leis, de políticas de inserção social desta camada da sociedade, bem como a fortificação da fiscalização das violações destes direitos, salvaguardando assim os direitos fundamentais destas pessoas bem como a sua integridade física e emocional.

Em Angola não temos isso.

Não temos nenhum deputado ou deputada abertamente LGBTQIAP+ que leve debates sobre o direito das pessoas trans a fazerem todo o processo de transição no sistema nacional de saúde, a poderem mudar o género nos documentos para o gênero ao qual se identificam e pertencem, lançar no programa escolar, assuntos sobre sexualidade humana, criação de programas de formação jurídica para os polícias e agentes da ordem pública ou do judiciário, sobre o novo código penal que criminaliza a homofobia, a criação de políticas que reduzam a interdição de pessoas LGBTQIAP+ de concluírem os seus estudos por conta do ambiente hostil que são as nossas escolas, o acesso a serviços de saúde, etc.

O maior desafio que temos é este, pois no maior lugar de tomada de decisões e de mudanças político-sociais do nosso país, não temos ninguém que nos represente. Este é o maior dos desafios.

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