Licínio Januário: Do Bié para o mundo!

 

Há dez anos a viver no Brasil, o angolano Licínio Januário nasceu a 29 de outubro de 1991 na província do Bié, mas foi na capital  de Luanda onde passou boa parte da sua infância e adolescência, logo que terminou o ensino médio Licínio teve a oportunidade de ir ao Brasil estudar engenharia civil, mas já no último ano Licínio viu que não era engenheiro que queria ser,  e decidiu trancar o ano  para começar a trabalhar como actor, dramaturgo e produtor. Pelo seu trabalho no teatro Licínio Januário é notado pela rede Globo e faz a sua estreia em televisão na novela das 21 da global “Segundo sol’, dando vida a personagem Dominick. Depois da sua participação na Globo Licínio não parou, em 2016 funda o colectivo preto, ao lado da artista Sol Menezzes. O colectivo montou vários espetáculos, entre eles destacam-se o “ será que vai chover” escrito e dirigido por Lázaro Ramos . O ator é ainda gestor do teatro Gonzaguinha. 

Neste momento Licínio está no ar na Netflix na série Boca a Boca, que estreou no mês de julho, dando vida ao personagem Pontocom. Com outros projectos em carteiras e outros já concluídos apenas a espera da exibição como é o caso do filme “Vale Night” da Disney e da série Balaclava do canal Prime Box Brasil. Nesta nova fase e com uma plataforma de produção e distribuição de filmes a ser lançada Licínio Januário falou a Divo Magazine dos seus novos projetos e das dificuldades que teve para se afirmar no mundo artístico  sendo Negro.

Grande defensor da cultura negra, acredita que actualmente no que concerne o reconhecimento da cultura negra, do próprio negro e africano é tudo fruto da autonomia criativa negra.

“ Nós angolanos, nós africanos temos uma autonomia criativa, de produção muito rica, toda essa construção do filme da Beyoncé, Black Is King é um resultado da autonomia da criação negra, tudo começou com o Fela Kuti e o afrobeat, tudo isso chamou a atenção do mundo, nós africanos somos criativos, eu saiu da engenharia com uma vivência de produção, mais os segredos artísticos de ser africanos. Eu comecei a criar a minha carreira assim, não tive dificuldades eu tive processo de produção, eu sempre fui uma pessoa estratégia não vou dizer que tive o mesmo processo de uma pessoa branca, nós todos sabemos que os brancos são os preferidos, não tive o mesmo caminho mais pode traçar estratégias”. Declarou a actor.

Entende a novela segundo sol como a grande potencializadora do seu sucesso internacional, “ Quando fui a globo já tinha uma carreira promissora no teatro e na internet, para além de actor eu sou produtor e guionista, antes de fazer a novela eu já estava a negociar com canais internacionais, eu já estava nessa cultura internacional, mais claro que a rede Globo ajudou, eu costumo dizer que o Brasil é para os PALOP e os Estados Unidos para o mundo, a novela deu uma potencializada em tudo aquilo que eu estava a construir”. Afirmou o actor .

Sobre a sua participação na série Boca a Boca emitida pela Netflix a maior distribuidora de conteúdos audiovisuais no mundo, Licínio fala da sua satisfação, “ Estar na Netflix, como eu posso dizer, eu sou um angolano e a Netflix está em 190 países, então é um angolano a ser visto por 190 países, o meu rosto está em 190 países, então estar na Netflix pra mim mostra o caminho que o mundo está a trilhar da internacionalização, pra minha carreira de actor é muito importante, é uma luta muito grande na minha carreira, nas minhas construções, estar na Netflix é uma confirmação de que as minha escolhas e lutas foram certas”.

Falou visivelmente feliz, afirmando que para além da Netflix também tem projetos com a Disney, “ De momento estou a espera se a minha série vai ter uma segunda temporada, mas por enquanto estou a fazer vários testes não só na Netflix , mais também na Amazon, na Disney. Mas neste momento estou focado na minha empresa de produção de áudio visual, eu acho que temos uma construção muito grande a fazer nos PALOP”.

Questionado sobre como vai funcionar esta plataforma e porque decidiu virar as suas armas para esta vertente Licínio explica, “Nesse momento estou a abrir uma plataforma de distribuição de filmes com a mesma narrativa que os americanos, e trazer essas narrativas para nós os PALOP, os negros pelo mundo estão a se unir, os filme pantera negra mostrou isto, o filme da Beyoncé mostrou também isto agora, e nós nunca estamos nesses ciclos, os canais de televisão já não estão em alta o que está em alta é a internet, então estou a criar esta plataforma para começarmos a valorizar mais o que é nosso e deixar de importar, precisamos unir mais a nossa indústria de áudio visual, Angola, Brasil, Portugal, esse projeto se chama Wollo TV, e vamos produzir a nossa primeira série agora em setembro que quero muito que essa série seja veiculada em Angola, quero começar com este projeto o meu caminho de volta pra casa. Eu aqui no Brasil aprendi uma coisa, é que nós temos de deixar de chegar atrasados, temos de deixar de fazer participações pontuais e começar a fazer participações mais consistentes” contou-nos.

Mesmo longe de Angola Licínio mostrou-nos que está a acompanhar o desenrolar do mundo de audiovisual em Angola e como angolanos pretende fazer mais, “ Eu tenho acompanhado alguns actores que acabam sendo criadores, como o Silvio Santos, mas acho que ainda há muito por se fazer, nós devíamos estar mais presentes em plataformas como a Netflix, nós estamos muito atrasados, nós temos muito que correr, os negros americanos já entenderam o audiovisual como um circuito lucrativos, nós precisamos entender isso. Outra coisa positiva que eu vejo em Angola são os programas televisivos em vários canais apresentados por negros algo que você não vê no Brasil, o Brasil é o país negro 56% da população brasileira é negra e aqui você não vê negros em televisão como em Angola, mesmo tendo uma população negra maior que em Angola, falo isso na vertente do lucro, temos que começar a ver isto como um mercado lucrativo”. O Licínio é hoje um grande agente cultural da sua geração .

 

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